quarta-feira, 9 de maio de 2012

Os ombros suportam o mundo...

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus. Tempo de absoluta depuração. Tempo em que não se diz mais: meu amor. Porque o amor resultou inútil. E os olhos não choram. E as mãos tecem apenas o rude trabalho. E o coração está seco. Em vão mulheres batem à porta,não abrirás. Ficaste sozinho,a luz apagou-se, mas na sombra teus olhos resplandecem enormes. És todo certeza,
já não sabes sofrer. E nada esperas de teus amigos. Pouco importa venha a velhice,que é a velhice? Teu ombros suportam o mundo e ele não pesa mais que a mão de uma criança. As guerras,as fomes,as discussões dentro dos edifícios provam apenas que a vida prossegue e nem todos se libertaram ainda. Alguns,achando bárbaro o espetáculo, prefeririam (os delicados) morrer. Chegou um tempo em que não adianta morrer. Chegou um tempo em que a vida é uma ordem. A vida apenas,sem mistificação. (Carlos Drummond de Andrade)

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